Friday, 29 August 2025

Uma outra leitura AI do meu texto de hoje no Diário de Notícias

 

O Contexto de "Uma Rentrée Pouco Promissora" por Victor Ângelo

No texto "Uma Rentrée Pouco Promissora", hoje publicado no Diário de Notícias (29/08/2025), Victor Ângelo oferece uma perspetiva sombria e crítica sobre o cenário político e internacional. O autor compara o panorama do ano anterior, que já considerava "inquietante", com o atual, que agora descreve com uma falta quase total de esperança.


Tópicos Principais e Argumentos

O autor estrutura a sua análise em vários pontos centrais:

  1. Ameaças Globais e a Vitó́ria de Trump: O texto inicia com uma reflexão sobre as preocupações de 2024, nomeadamente a intensificação de conflitos e as eleições presidenciais nos EUA. O autor aponta a vitória de Donald Trump como um fator crucial que agravou as tensões, reforçando regimes autoritários e ideias ultrarreacionárias em todo o mundo. A sua inquietação inicial, que ainda continha alguma esperança, esvaiu-se quase por completo.

  2. O Declínio da Governação Democrática: Ângelo lamenta a prevalência do abuso de poder, a aposta em soluções militares em detrimento da diplomacia e o desprezo pela lei internacional e pelos países mais fracos. Estes traços, na sua opinião, estão a marcar o presente e a escurecer o futuro da comunidade de nações que valoriza a democracia.

  3. A Corrida pela Inteligência Artificial (IA): O autor introduz a competição acelerada entre superpotências — especialmente EUA e China — pelo domínio da IA. Ele argumenta que esta corrida tecnológica é um novo pilar das rivalidades globais, com altos riscos de conflito, dado que a supremacia na IA se traduz em superioridade económica, militar e geopolítica.

  4. A IA como Pilar da Defesa Moderna: Usando o exemplo da Ucrânia, Ângelo ilustra como a tecnologia digital e a IA se tornaram fundamentais para a soberania e a defesa nacional. Ele menciona o uso de informações de alta precisão, sistemas de satélites como o Starlink e a proteção contra ataques cibernéticos, concluindo que a força militar de um país está agora diretamente ligada à sua capacidade de usar a IA.

  5. Proposta de Investimento em Defesa: Face à necessidade de aprofundar os investimentos em defesa, o autor sugere que uma grande parte dos fundos alocados pelos países da Aliança Atlântica seja investida na revolução digital e na formação de quadros em cibernética e indústrias de IA. Esta estratégia, defende ele, seria duplamente benéfica, servindo tanto para o progresso civil como para a defesa dos valores ocidentais.

  6. A Irrelevância das Nações Unidas: O texto critica a crescente irrelevância das Nações Unidas, que se encontra sem recursos e quase sem capacidade de intervenção, apesar do número de conflitos ativos ser o mais elevado desde 1945. Ângelo responsabiliza os EUA e a China por não honrarem as suas contribuições, o que estrangula financeiramente a organização e a afasta da sua missão principal de promover a paz e a segurança.

  7. A Rentrée com Putin e Líderes Europeus: Por fim, o autor sublinha a falta de "espinha dorsal" dos líderes europeus na sua interação com Donald Trump. Ângelo menciona o encontro entre Trump e Vladimir Putin no Alasca, bem como a reunião de Trump com líderes europeus. Ele descreve esses eventos como inconcebíveis, em que Putin usou Trump para ganhar tempo na guerra contra a Ucrânia e os líderes europeus se contentaram com a "ilusão" de uma reunião de paz. Para o autor, estes episódios marcam uma rentrée sem sinais animadores.

O meu texto da rentrée: os pontos essenciais

 Resumo do meu texto de opinião que hoje publico no Diário de Notícias. 

https://www.dn.pt/opiniao/uma-rentr%C3%A9e-pouco-promissora

O panorama político e internacional para 2025/2026 é marcado por desafios crescentes e complexos, com tensões geopolíticas intensificadas, especialmente entre grandes potências, e uma diminuição da esperança em soluções pacíficas e democráticas.

  • Cenário internacional inquietante: Em 2024, já se previa uma intensificação das crises e conflitos, com as eleições nos EUA como ponto crítico, cujo resultado poderia agravar tensões globais e fortalecer regimes autoritários. A esperança então existente diminuiu significativamente neste novo ciclo político. 

  • Competição pela supremacia em Inteligência Artificial: A rivalidade entre EUA e China na área da IA é decisiva para o domínio econômico, militar e geopolítico, tornando-se um campo de rivalidades e riscos de conflito. 

  • Importância da IA na defesa nacional: O conflito na Ucrânia evidencia como a IA e tecnologias digitais, como satélites e drones, são fundamentais para a soberania e defesa legítima, alterando a percepção da força militar. 

  • Crise nas instituições internacionais: As Nações Unidas enfrentam grave falta de recursos, comprometendo sua capacidade de mediar conflitos e promover a paz, agravada pela inadimplência financeira de potências como EUA e China, o que ameaça sua relevância global. 

Saturday, 23 August 2025

Reflecting about the New Global Order: moving fast and full of complexities

 

A World of Converging Uncertainties: An Analysis of the Post-Cold War Global Order

Executive Summary

Victor Ângelo's texts and public interventions are based on a compelling synthesis of the major trends shaping the contemporary global landscape. Its central thesis posits that the international system is at a critical inflection point, moving beyond the post-Cold War era of cooperation into a new, more fragmented, and perilous phase. This transition is defined by the convergence of three primary trends: the resurgence of great power competition, driven by the erosion of traditional strategic safeguards and the emergence of new geopolitical theaters; a profound crisis of multilateralism, as international institutions struggle with financial shortfalls and a loss of consensus; and a fundamental shift in United States foreign policy toward a transactional, "America First" model. His analysises demonstrate that these elements are not isolated issues but are causally linked in a "polycrisis" where a breakdown in one area exacerbates vulnerabilities in others. It is his view that the world is now navigating a complex and uncertain period where old frameworks are no longer sufficient to understand, lead and manage new, multifaceted challenges.

1. The Resurgence of Geopolitical Competition

The defining feature of the present global order is the return of great power rivalry, both through traditional means and by making use of the rapidly evolving digital instruments. This dynamic is manifesting not only in the breakdown of long-standing agreements but also in the militarization of new strategic regions and the employment of new forms of diplomacy that bypass traditional norms. The use of A.I. reinforces the race and creates a narrative that is most disturbing. 

1.1 The Erosion of Strategic Stability and Arms Control

The post-Cold War era saw a concerted effort to build a web of arms control treaties aimed at reducing the risk of nuclear conflict. Today, this system is in a state of selective decay, creating new risks and highlighting a shift in strategic priorities.

The precarious status of the New START Treaty is a central element of this instability. Officially known as the Treaty between the United States of America and the Russian Federation on Measures for the Further Reduction and Limitation of Strategic Offensive Arms, New START is currently the only major remaining arms control agreement between the two nations. The treaty places verifiable limits on strategic offensive weapons, including deployed intercontinental ballistic missiles (ICBMs), deployed submarine-launched ballistic missiles (SLBMs), and deployed heavy bombers equipped for nuclear armaments. Both sides are obligated to remain at or below specific aggregate limits: 700 deployed strategic delivery vehicles, 1,550 nuclear warheads, and 800 deployed and non-deployed launchers. This treaty is particularly important as it constrains the development of new Russian long-range nuclear weapons like the Avangard and Sarmat that are capable of reaching the U.S. homeland.

The treaty's verification and transparency measures are critical for U.S. national security. These provisions include up to 18 on-site inspections per year, biannual data exchanges, and regular notifications on strategic exercises and new weapon systems. These measures provide a vital window into Russian intercontinental-range nuclear forces and operations, giving the U.S. crucial intelligence that would otherwise be unavailable. Without them, U.S. knowledge and confidence in its assessments of Russia's nuclear forces would decrease, complicating decisions about its own force structure. The treaty was initially in force for 10 years and was extended through February 4, 2026. The maintenance of this treaty, despite a deeply adversarial relationship, suggests that its verifiable limits on the most direct and existential threats are considered too important to abandon.

In stark contrast, the Intermediate-Range Nuclear Forces (INF) Treaty has completely dissolved, a development that signifies a new, more confrontational era of open rearmament. Signed in 1987 by Ronald Reagan and Mikhail Gorbachev, the INF Treaty banned all ground-launched ballistic and cruise missiles with ranges between 500 and 5,500 kilometers. It was hailed as a major arms control achievement that ended a dangerous chapter of the Cold War and served as a crucial "firebreak" against escalation. The treaty's collapse began when the U.S. formally withdrew in 2019 under President Donald Trump, citing Russia's violation of the terms by developing and deploying the 9M729 (SSC-8) missile system. Russia, for its part, officially abandoned its self-imposed moratorium on the treaty in the wake of deploying the Oreshnik missile, a weapon with a range that violates the defunct treaty, and after nuclear threats were issued by former Russian president Dmitry Medvedev. This breakdown has led to a reciprocal military buildup. The U.S. plans "episodic deployments" of intermediate-range missiles to Germany and has already deployed Typhon missile launchers in the Philippines, while Russia has confirmed the deployment of the nuclear-capable Oreshnik missile to Belarus, which borders three NATO members.

The divergent fates of these two treaties illuminate a fundamental shift in strategic logic. While New START, with its focus on verifiable limitations of intercontinental threats to the U.S. homeland, remains in force, the INF, with its broader scope and perceived vulnerabilities, has been discarded. The dissolution of the INF Treaty has been accompanied by a dangerous escalation in nuclear rhetoric from both sides, increasing the risk of miscalculation in an era with fewer safeguards. This rearmament and the increasingly adversarial posture reflect a strategic worldview articulated by Vladimir Putin, whose foreign policy has long been aimed at bolstering Russia's status as a world player and countering what he perceives as Western dominance. This situation is often referred to as a "Cold War II," where renewed competition is once again the defining feature of great power relations.

1.2 The Arctic as a New Front

The Arctic, once envisioned as a zone of peace and cooperation, is rapidly transforming into a new theater for strategic competition. This shift is driven by the interconnected forces of climate change, vast economic potential, and a history of military importance.

The primary catalyst for this transformation is climate change. The Arctic, previously covered in permanent pack ice, is becoming far more accessible, making fabled sea routes—such as the North Sea Route and the Northwest Passage—a realistic prospect for global shipping. These routes could reduce transit times by as much as a third, opening up new avenues for commerce. The region also holds significant economic riches, with estimates of approximately $1 trillion in minerals, 30% of the world’s undiscovered gas reserves, and 13% of its undiscovered oil.

The region's historical importance as a Cold War theater for intercontinental ballistic missiles and bombers is now being revisited in a new context of strategic competition. Today, the Arctic is a territory for competition among Russia, the United States, and China, serving as a "critical ancillary theater that enables strategic outcomes elsewhere". Russia holds a significant military advantage in the region, having modernized its Arctic military bases, deployed defense missiles, and upgraded its submarine fleet over the past decade. Russia and China combined operate around 45 icebreakers, a stark contrast to the United States, which faces a significant "icebreaker gap" with only two aging icebreakers and one commercially procured vessel in its fleet.

The United States Air Force Arctic Strategy acknowledges that the region’s capacity as a strategic buffer is eroding, which has a direct effect on global military strategy. By securing NATO's northern flank and limiting Russian naval operations in the Arctic, the U.S. can reduce the risk of a two-front maritime conflict, thereby freeing up forces to maintain pressure on China in the Indo-Pacific region. This demonstrates a clear and interconnected strategic link between events in the Arctic and the broader competition in the Indo-Pacific. Furthermore, the breakdown of cooperation between Russia and the seven other Arctic states within the Arctic Council has prompted Russia to pivot eastward, doubling down on collaboration with non-Arctic strategic competitors like China. This strategic realignment is a direct consequence of Western sanctions and diplomatic isolation, showing that Russia is adapting by seeking new partners for technology and investment from nations such as the United Arab Emirates and Turkey.

1.3 The Trump-Putin Summit in Alaska: An Exercise in Transactional Diplomacy

The recent summit between U.S. President Donald Trump and Russian President Vladimir Putin in Alaska is a central feature of the new, uncertain international environment. This event is a defining moment for the Trump administration's foreign policy and a significant test of the established international order.

The summit took place on August 15, 2025, in Alaska, with the primary objective of negotiating an end to the war in Ukraine. The meeting was set against a backdrop of deeply conflicting peace proposals. Russia has reportedly floated a ceasefire plan that would involve Ukraine ceding significant territory in the Donbas region—Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia, and Kherson—in exchange for an end to the fighting and U.S. assistance in securing international recognition of these annexations. Ukrainian President Volodymyr Zelenskyy, however, has consistently rejected any territorial concessions, and the Ukrainian constitution requires a national referendum for any territorial changes.

By meeting directly with Putin and sidelining European nations and Ukraine, the U.S. implicitly validated Russia's strategy of bypassing established international norms and alliances. This approach creates a precedent for resolving international disputes through coercion rather than consensus. The exclusion of Ukraine is not merely a diplomatic snub; it is a core element of Putin’s strategy to secure a deal with Trump that can be presented to Kyiv and other European capitals as a fait accompli.

The choice of Alaska as the venue carries its own symbolic and strategic significance. Some voices in Russia view it as a reminder of "annexed Russian land" and a symbol of a trade relationship Moscow hopes to revive with Washington. It is also seen as a practical arena for cooperation on future economic ventures in the Arctic, a region where the economic interests of both countries intersect. Both leaders are entering the talks under significant domestic pressure. For Trump, the aim was to bolster his image as a global leader. For Putin, the war has created mounting economic challenges as a result of the sanctions. 

1.4 The A.I. as a critical instrument in the superpower competition

AI is not just a technology—it is an economic multiplier. Nations that effectively integrate AI into their economies gain advantages in productivity, innovation, and global influence. The race for AI supremacy is, therefore, a race for future economic leadership, with profound implications for global trade, employment, and national power.

The competition in artificial intelligence (AI) between the United States and China is widely viewed as a critical component of their broader geopolitical rivalry. This contest is seen as an international struggle for power that will significantly shape global power dynamics in the coming decades . The race for AI dominance is often framed as a direct competition between these two superpowers, which some believe will define the future of global power . This technological race intersects with geopolitics, inevitably contributing to future conflicts. .


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Monday, 11 August 2025

Ainda sobre os BRICS

O artigo **"Os BRICS ainda têm pés de barro"**, de **Victor Ângelo**, publicado no Diário de Notícias de 11 de Julho de 2025, oferece uma análise crítica e reflexiva sobre a atual relevância geopolítica do bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), destacando tanto as suas ambições quanto as suas fragilidades estruturais. A seguir, apresento uma síntese e análise do texto, seguida de comentários sobre seus principais argumentos.

### **Síntese do Artigo**

Victor Ângelo parte da mais recente cimeira dos BRICS no Rio de Janeiro para refletir sobre as transformações no sistema internacional. Ele identifica dois momentos-chave da descolonização:

1. **A primeira descolonização**, após a Segunda Guerra Mundial, que levou à independência de muitas nações asiáticas e africanas e ao crescimento da ONU — de 51 membros em 1945 para 144 em 1975.

2. **A "segunda descolonização"**, um processo contemporâneo de desconexão política e econômica entre os países desenvolvidos (especialmente EUA e Europa) e o que ele chama de "antigas colônias", impulsionado por uma nova busca por autonomia geopolítica.

Nesse contexto, a China, sob a liderança de Xi Jinping, emerge como um ator central. Em 2013, lança a **Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI)**, um projeto de infraestrutura global que visa ampliar sua influência econômica e militar. No entanto, faltava à China uma dimensão política multilateral — algo que os **BRICS** poderiam oferecer.

O bloco, inicialmente concebido na década de 2000 como contraponto ao G7, ganhou novo impulso com o envolvimento estratégico da China. Os BRICS passaram a ser vistos como um possível **alternativa ao sistema ocidental dominado pelos EUA**, com potencial para criar uma nova arquitetura internacional baseada em cooperação digital, exploração espacial, novas moedas e comércio sem o dólar.

Contudo, o autor argumenta que os BRICS têm **"pés de barro"** — ou seja, apesar das ambições, sofrem de fragilidades profundas:

- Falta de **imparcialidade política**, evidenciada pela incapacidade de condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia.

- **Rivalidades internas**, especialmente entre Índia e China, e entre Brasil e China (no que diz respeito a aspirações de assento permanente no Conselho de Segurança da ONU).

- Ausência de compromisso com **direitos humanos** e **regras do direito internacional** entre seus membros.

- Caráter de **aliança de conveniência**, não de integração ideológica ou estratégica.

O resultado, segundo Ângelo, é um bloco que pode contribuir para o **equilíbrio do sistema internacional**, mas que corre o risco de se tornar **problemático** se suas contradições internas não forem reconhecidas.

### **Análise dos Principais Argumentos**

#### 1. **A "segunda descolonização"**

A ideia de uma segunda descolonização é provocadora e útil. Ela vai além da independência formal e toca na **busca por autonomia estratégica**, especialmente em áreas como:

- Moedas próprias (desdolarização)

- Bancos de desenvolvimento alternativos (como o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS)

- Redes de comércio e tecnologia fora do controle ocidental

Essa leitura captura bem o desejo de países do Sul Global de **reconfigurar o poder global**, não apenas em termos econômicos, mas simbólicos.

#### 2. **O papel central da China**

Xi Jinping é apresentado como o estrategista que viu nos BRICS uma oportunidade de **legitimar globalmente a China** como potência alternativa. A BRI e os BRICS são dois braços complementares: um econômico-infrastructurel, outro político-diplomático.

No entanto, o autor lembra que o projeto chinês também serve a **interesses internos**: fortalecer o nacionalismo, garantir prosperidade e consolidar o poder do Partido Comunista.

#### 3. **Fragilidades dos BRICS**

O ponto mais forte do artigo é a crítica à **falta de coesão e legitimidade moral** do bloco:

- A **omissão sobre a Ucrânia** mostra que os BRICS não conseguem agir como mediadores neutros — exatamente como o Conselho de Segurança da ONU, paralisado por interesses de potências.

- As **rivalidades bilaterais**, como entre Índia e China (com conflitos de fronteira e competição regional), minam a unidade.

- O Brasil e a Índia veem os BRICS como **moeda de troca** para ganhar assento no Conselho de Segurança da ONU — mas a China tem interesse em **bloquear isso**, para não ter que ceder espaço à Índia.

Isso revela que os BRICS são, acima de tudo, um **espaço de negociação de interesses nacionais**, não uma comunidade de valores.

#### 4. **Questões éticas e de governança**

O autor não poupa críticas ao perfil autoritário de vários membros do bloco:

- China: repressão em Xinjiang, Hong Kong

- Rússia: guerra na Ucrânia, regime de Putin

- Índia: deriva nacionalista de Modi

- Brasil: Bolsonaro (no passado), mas também desafios democráticos.

Essa falta de compromisso com **democracia e direitos humanos** enfraquece a pretensão dos BRICS de oferecer uma "nova ordem" mais justa.

### **Conclusão: BRICS — promessa e limites**

Victor Ângelo conclui com uma visão realista: os BRICS **podem contribuir para um mundo multipolar**, mas não são uma alternativa sólida ou coesa ao sistema ocidental. São uma **aliança frágil**, baseada em interesses convergentes momentâneos, mas minada por rivalidades profundas e ausência de princípios comuns.

A metáfora dos **"pés de barro"** é precisa: o bloco pode parecer forte à superfície, mas repousa sobre fundamentos instáveis.

### **Reflexão Final**

O artigo é um convite à **humildade estratégica**. Enquanto o Ocidente enfrenta desgaste de hegemonia, o Sul Global busca novos caminhos — mas não há garantia de que esses novos arranjos sejam mais justos, democráticos ou estáveis. A verdadeira transformação do sistema internacional exigirá mais do que cooperação interestatal: exigirá **compromisso com regras, transparência e valores universais**.

Os BRICS podem ser parte desse futuro — mas, por enquanto, ainda estão longe de ser seu alicerce.

**Em uma frase**:  

*Os BRICS refletem o desejo de um mundo multipolar, mas sua falta de coesão, imparcialidade e valores comuns mostra que ainda têm muito chão a percorrer antes de se tornarem uma verdadeira alternativa global.*